sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Carta

Era um belo sábado, dava para notar que seria ótimo só pelo nascer do dia. Eram 6:40 da manhã e já dava para notar pelo vão da janela os primeiros raios de sol do amanhecer. Espreguiçou-se e olhou para o marido que folgadamente dormia. Ainda sentia-se cansada do dia anterior, mas não poderia voltar a dormir já que teria que preparar o café da manhã da família.
Levantou-se e calçou os chinelos de dormir que de tão velhos, pareciam chinelos de rua. Foi ao quarto ao lado, sua pequena Alice ainda dormia, tão pequenininha, agarrada ao seu elefantinho de pelúcia. "Que lindo fruto eu gerei", pensou. Foi ao banheiro, escovou os dentes, lavou o rosto com o sabonete e assim espantou o sono.
Devagar e silenciosamente, foi até a cozinha, pegou a chaleira e a encheu até a boca de água. Deixou no fogão para aquecer. Enquanto fazia isso, separou os pães, a manteiga, o queijo prato, a mortadela e o salame e os espalhou pela mesa. Depois, pegou os pratos, talheres e as canecas de cada um. Foi ao armário e pegou um vaso branco, todo riscado de cinza que chegava a, inclusive, dar a impressão de que um dia fora quebrado e depois colado novamente. Encheu o vaso de água, e depositou um punhado de lindos lírios brancos. Levou o vaso até o centro da mesa e lá deixou. "Ficou lindo!", pensou.
A chaleira já apitava, chamando -a insistentemente para que fizesse logo o café. Agilmente, foi até a dispensa e pegou o pó de café. Delicadamente, colocava as colheradas de café dentro do coador e, cuidadosamente, o molhava com a água. O aroma que se espalhava pela cozinha era enlouquecedor. Café fresco, não o adoçou pois o marido gostava dele assim, amargo. Levou a garrafa de café até a mesa, pegou a leiteira e encheu de leite. Levou-a até o fogão para que esquentasse - mas não muito, pois sua Alice não gostava de leite quente demais.
Com a mesa já posta, voltou ao quarto onde o marido ainda dormia. Estava com um singular sorriso no rosto: "deve estar sonhando", pensou. Foi até a sua cômoda, uma pequena que fica logo no canto direito do quarto. Abriu a terceira gaveta, aquela onde guardava suas blusinhas. Escolheu uma que o marido deu a ela há uns meses atrás. Era linda! De um vermelho vivo, a costura fazia lances de pequenas tranças que percorria toda a blusinha e encerravam-se como cortininhas ao seu final. Suas mangas pareciam ter sido enchidas com ar, de tão fofas que eram. Vestiu sua calça jeans e escolheu a sandália que a filha dera no último dia das mães. Era uma sandália sem salto, dessas rasas e suas hastes rodeavam seus dedos e se uniam onde uma grande flor vermelha as prendiam.
Pensou em dar um beijo no marido que tão profundamente dormia. Ficou onde estava, era sábado e não queria que ele acordasse cedo depois de uma semana tão longa e cansativa.  Então sentou-se, e preferiu ficar contemplando ele dali, onde estava. Passou a reparar bem como ele era.
Era algo impossível ver-lo como ele está agora: tão tranquilo. Geralmente ele é estourado, estressado por conta do dólar que não sabe se sobe ou se cai.  Ele é grande de altura e de peso, sua barriga parecia ter formato de uma bola de basquete. Seus grandes olhos azuis faziam contraste com seu espesso cabelo grisalho já da idade.
Ao lado da cama, havia um pequeno criado-mudo que guardava todas as memórias do dia-a-dia: o relógio prata de bolso (ele adora esses clássicos!), ao seu lado, as alianças de ouro maciço que trocaram no casamento. Seu interior era marcado com os dizeres: "Carlos e Helena. Enquanto houver vida, haverá amor - dez/94". Próximo as alianças que ali ficavam pois ambos tinham medo de perdê-las, ficava o pequeno abajur e a bíblia que sagradamente, ele lia todas as noites antes de dormir. E por último, na ponta do criado-mudo, ficava a foto dos dois, dias antes do casamento. O sorriso de ambos esbanjavam alegria, alegria da união, do tão esperado "felizes para sempre".
Foi ao banheiro, passou um pouco de maquiagem no rosto, para que quando o marido acordasse a visse linda. Passou por último o batom rosa e, silenciosamente, saiu.
 Deu uma segunda olhada na filha que ainda dormia. Continuava abraçada ao seu elefantinho de pelúcia.Seus cabelos loiros compridos bagunçavam-se graciosamente ao seu rosto. "Será uma linda mulher quando crescer". Sentia muito orgulho de sua filha. Era muito elogiada pelos professores da escola pois era muito inteligente, a primeira da classe. Sonhava em ser médica quando crescesse.
Olhou o relógio e nem percebia que já havia dado 8 horas. Sentia muita fome. Resolveu ir na cozinha, beliscar um pouco do café que preparara, mas só um pouco, pois o resto comeria quando a família acordasse. Era sábado e todos deveria comer juntos.
Terminou de comer e foi a sala para tricotar. Mas, ao se aproximar da estante onde ficava a agulha e a lã, encontrou um álbum de fotos. Resolveu olhar o álbum que de repente surgira no local errado e relembrar antigas memórias.
Para ela, álbum de fotos fora a melhor invenção pois lá tinha registrado com imagens, tudo que vivera, desde seu nascimento até hoje. Pensou tanto nas antigas lembranças que nem se deu pela hora passada. Como tudo continuava silencioso, pensou que todos estavam ainda dormindo.Já eram 11 horas da manhã.
Foi quando, bem concentrada olhando as antigas fotos que, num susto, ouviu a campainha tocar. Levantou-se, foi até a porta e se deu com o carteiro que lhe entregara um grande envelope branco. Pediu que assinasse a entrega e foi-se embora.
De volta a sua poltrona, começou a ver o envelope grande, branco, de papel aparentemente nobre e com uma pequena bandeira brasileira pintada no seu canto superior direito. Com sua unha, delicadamente abriu o envelope. Dentro dele, encontrou dois documentos, digitados à maquina de escrever e com um grande semblante brilhante importante no lado superior esquerdo. Logo em seu início, lia-se em letras garrafais: "Certidão de Óbito. Certificamos o óbito de Carlos Freitas Junior no dia 20 de outubro de 2012 devido uma falência múltipla dos órgãos. Deixa sua cônjuge, Helena Aparecida Freitas." O segundo documento continha os mesmos dizeres, porém no nome de Alice Aparecida Freitas.
Ao terminar de ler o documento, limpou as lágrimas que rolavam por seu rosto. Lembrou-se do acidente que sofrera . Uma noite horrível após um dia tão agradável na casa de sua mãe. A caminho de casa, um motorista alcoolizado acertou em cheio o carro que estavam, matando seu marido e filha.
Pegou os documentos, guardou na estante e junto a ela o álbum de fotos. Encostou-se na poltrona e, ainda em lágrimas, e adormeceu.

(Ana Carolina Morais)

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O campo e a cidade

Depois de ser acordada pelo seu pai, Raquel calçou os sapatos e abriu seu guarda roupa. Pegou o vestido de seda e vestiu-se. Abriu o porta joias e colocou os brincos de esmeralda herdados da mãe já falecida. Desceu as escadas e foi tomar café da manhã com seu pai, que preocupado, insistentemente a orientava:
   - Filha, cuidado com os colegas, na faculdade, não ande com más companhias. Lá na cidade, onde você se formará grande advogada para cuidar dos negócios da família, o povo não é como aqui na fazenda não. Tem pessoas drogadas, tem meninas perdidas, tem gente que não quer nada com nada, e homens que só querem se aproveita de meninas inocentes como você, minha filha.
A filha mal ouviu o pai, estava mesmo querendo ir logo embora, sabia que nada daquilo era verdade, era só o pai que só via terror nos jornais. Queria mesmo ir de uma vez e conhecer a verdadeira face da liberdade. Não que ela não fosse livre, mas gostaria de viver sem os 'compadres" de seu pai que a seguiam onde quer que fosse. Queria andar na cidade sem se preocupar de olhos curiosos, atentos a saber a onde ela ia. Terminou apressadamente de comer e logo deixou pra trás os talheres de prata na mesa. Pegou as malas que a governanta preparara, despediu-se do pai na porta, onde o carro, preto e suntuoso já a esperava.
No caminho, muito contente, começava a imaginar como seria sua nova vida na cidade: novos amigos, novos lugares, poderia sair livremente sem ter que pedir permissão ao pai, além das provas e atividade da faculdade. Vida nova! A única coisa que ela se importava era que o curso não era o que ela almejava uma vez que o pai escolhera tal profissão para que cuidasse dos negócios da família, mas o importante era o que seria novo!
Nos primeiros dias, Raquel frequentou as aulas regularmente, mas ao passo que  conhecia de verdade sua colega de quarto, Tifanny, vivenciou tudo que o pai advertira a filha a não fazer: passou a beber todas as noites e frequentas as todas e maiores festas da cidade. Por consequência, passou a faltar na faculdade por conta das longas ressacas e noites mal dormidas.
No começo, era tudo divertido, tudo novo, só quando ela percebeu que o álcool se tornara "necessário em sua vida" tomou consciência que deveria começar a dar ouvidos a o que ouvia de seu pai. "-Cuidado com os colegas na faculdade.". Percebeu que as amigas estavam ainda piores do que ela, bebiam até em horário de aula - quando iam. No quarto mês de faculdade,a novidade: uma de suas colegas abandonara o curso. Por que? Estava grávida e nem sabia quem era o pai. "- Tem meninas perdidas, tem gente que não quer nada com nada.".
Começou a sentir saudades da fazenda, do pai, mas na cidade estava tão livre! O celular já mal atendia o pai, dizia estar sempre ocupada, estudando.
Tudo que seu pai advertira estava diante de seus olhos: más companhias, drogas, bebês sem pais e gente que não queria nada com nada, e ela mesma, a única e tão amada filha do pai, perdida e alcoólatra. Sentia falta de casa, e desejou, pela primeira vez, voltar e implorar o perdão de seu pai.
Foi então que decidiu que tomaria coragem e voltaria para casa e que aquela, seria sua última noite na cidade! Junto com sua colega, fez sua habitual ida ao barzinho que há próximo a república. Estava tudo normal, como sempre, seu copo de cerveja gelada na mão, rindo e se divertindo com os colegas. De repente, um som cortou a diversão, saiu rasgando o ar e acertou em cheio o peito de sua amiga, Tiffany. Era um assalto. Enquanto Tiffany sangrava sem parar, seus colegas correram sem nem prestar socorro. Raquel, ajoelhada sem saber o que fazer começou a rezar, para que alguém aparecesse e a ajudasse, mas como resposta, obteve o mesmo destino de sua amiga.  Naquele momento percebeu que acabara tudo: barzinho, liberdade, a fazenda. Se arrependeu profundamente por ter levado aquela vida. Se arrependeu de ter ignorado seu pai todos os dias, e que nunca mais tornaria a ouvir sua voz. Se arrependeu, acima de tudo da decepção que seu pai sentiria assim que soubesse no acontecido.
Uma pena que a vida não é realmente como a gente quer, entre o sonho e a realidade, há sempre um anjo que resiste aos nossos desejos.

(Ana Carolina, Bruna, Jeniffer, Denise, Denise B, Joelma e Stephany)

O brilho do mundo

No alto de uma torre
Há uma luz
Uma luz que se acende
E apaga
Acende
E apaga.

Não muito distante daquele lugar
Há uma garotinha
Perdida e sozinha
Seus pais estão na cozinha
Perdida e sozinha.
Ouve-se gritos e patifaria
Por entre seus botões
Ela pensa em felicidade
"O que será felicidade?"

Silêncio.
Silêncio.
O que será que houve?

Logo em seguida,
em um passar de segundos
Ela ouve barulhos na escada
Passadas e sofridas
Coisa de outro mundo.

Ela olha pra janela,
E pensa novamente:
"O que é felicidade?"
Seus olhos se encontram com a luz
Vindo do fundo da cidade
Aquela luz lá
Que se acende
e apaga
Acende
E apaga.

(Ana Carolina Morais)